Procuram-se ilusões

By Gil Pena

Nas minhas andanças pela história e personagens da Patologia, chego ao pequeno livro de Romeu Cardoso Guimarães, publicado em 1994, “Procuram-se ilusões”. No início um patologista, no velho DAPML, vindo na linhagem do Bogliolo. Seu livro vem a mim a guisa de um colóquio, que com ele próprio não tive oportunidade de ter.

De início, admira-me vê-lo, como um esotérico, na escola do Bogliolo, que de algum modo se libertou, trilhando uma carreira acadêmica-universitária, dentro de outro estilo, exotérico, por assim dizer, empreendendo uma busca, como pode sugerir o próprio título de seu livro, uma procura por ilusões. Estranho ver um cientista nesta busca, quando a escola de onde veio, a do velho Bogliolo, tinha um apego excessivo na busca por ‘fatos’. No texto que dá título ao livro, Romeu faz uma reflexão de sua vida universitária, com uma ontogênese iniciada na patologia, indo a fisiologia, a genética, a bioquímica, de novo a genética, a evolução e a filosofia da ciência. Traça um paralelo desta evolução pessoal e complexidade dos temas, decrescente e crescente, ao longo de sua carreira acadêmica.

O livro é interessante, textos breves, com questões muito pertinentes, expressando a preocupação do autor com seu papel acadêmico/universitário.

Temas sobre a vida e a morte, tratados de maneira instigante, não apenas de a partir da concepção biológica, mas com ramificações em questões culturais e religiosas.

A simplicidade do texto, creio que procurada pelo autor, produz um certo desconforto, como lhe faltasse um referencial, ou esse ainda se constitui em uma busca. Assim, temas como a ‘ética’, o ’sistema’, são tratados sem o devido cuidado teórico e profundidade que exigem, como fossem apenas reflexões, originadas em sua vida de investigador biológico. Parecem assim surgir como temas marginais da sua investigação, não merecendo o mesmo rigor científico, que dá aos temas biológicos. Seu sobrevoo por esses temas é ainda incipiente.

Como investigador da origem da vida, por algumas vezes, aborda o problema do ovo e da galinha. Dou aqui a minha pequena contribuição, de uma discussão que travamos em outro blog http://blog.disdeficiencia.net/2008/07/24/o-ovo-e-a-galinha-da-educacao/

A publicação do livro, em 1994, decerto não reflete o autor dos dias de hoje, mas nos oferece o seu retrato, numa faceta pouco usual ao investigador/cientista da genética. A busca por ilusões dá ao autor um viés exotérico, e decerto já tinha consigo esse germe desde os seus tempos no velho DAPML, na década de 60. A procura é então dar corpo (soma) a essa visão do mundo. O livro, uma pequena construção nesse sentido, talvez um momento dessa construção.

Deixe uma resposta