Em outro círculo, era o Anta, mas dele era exterior, como a outros. Talvez fosse o próprio fato de ser visto sempre alheio aos bandos, turmas, cardumes, matilhas, enxames, coletivos, que lhe produziu a apelação. Tapir. Dois nomes, o mesmo bicho, mas era mesmo o Anta. Tomassem-no por bobo, mas optaram Anta.
Pouco se sabe das antas, que dirá dos Antas, substantivo que adjetiva certos membros da espécie humana, por outros grupos da mesma espécie. Não é fácil capturar na anta, o bicho, o atributo que se transfere ao Anta, por analogia ou associação. Peso não era, fosse, seria o baleia. Ouso imaginar que fosse por atributo intelectual das antas, o seu silêncio contemplativo, a memória sempre recente, fugidia, mesmo as recordações antigas, atávicas, eram sempre revolvidas, remisturadas, no sentido de se perderem, evanescerem. Nuvens. Limpar o céu. Dia bom de pensar é dia de céu azul, bela manhã de abril, tardes em setembro. Nada para parar o pensamento, as soluções se produzem e se desfazem, não armazena, não carrega. Céu limpo.
O anta é sozinho, pois raros são os antas, e antas, por desprendimento de pensamento, não se prendem ou se vinculam. Propriedade de anta é não ser pigmaleão, não falo do bicho, mas da gente, que se insere no grupo e cria em grupo a sua identidade de ser gente. O Anta é o não ser. Quem é o Anta, não se sabe, pois é mistério vazio, transparente, céu limpo, azul. Nessa identidade fluida, dificilmente se perceberia o Anta como Anta, resiste a identificar-se, tratar-se como instância, convive em si na multiplicidade de se ser, pois que é, em verbo reflexivo.
Definiu-se como não-Anta, embora fosse o Anta. Fosse não fosse ainda muitas outras coisas, podia ainda ser mais que o não ser. Ser aprisiona na falsa ilusão de identidade, do eu, Anta, não-eu. Indefiniu-se como o Anta, o não-Anta.
Bom mesmo é o dia de céu azul, dia limpo, dia da anta, anta o bicho, calma, serenidade. Caber o não cabido, ser o não-ser. Hamlet, em conjunto da teoria, era ou não era, conjunção ou tratada na lógica da união, é ser ou não ser, conjunto de tudo o possível mais o não-possível. E essa não é a questão, ser e não ser, interseção, eis a questão.
Questão que se há de resolver, na imanência, sem recorrer a planos transbordantes transcendentes, onde acomodamos o não cabido. Interseção, conjunto vazio, neste, noutro plano.
Conjunto vazio, desterritório, ir deste a noutros planos, projetar um sobre o outro, em linhas de fuga, perspectiva imanente. O Anta contempla o fluir de um a outro plano, desenha conceitos, memória curta, provisória, evanescem, vê, em sobrevôo, outros círculos, circos, cercas, encerram complexos pseudo-conceitos, memória permanente, onde o que não cabe, nem sequer transcende, olhem, lá está o Anta.