Escrever

Escrevo como recurso de ser autor de pensamento, meio de capturá-lo, mantê-lo próximo, um instante.

Leitor, capto pensamento contido no voar, observo, proporciona possibilidade de compreensão, não pelo recurso da palavra, mas pelo artíficio de distanciar-se dela, aproximando-se do pensamento ali, vivo, movimentando-se. Beija-flor que se acolhe com as mâos, vivo, leve, vibrando.

O escritor deita o pensamento em palavras, leitor levanta das palavras o pensamento ali contido, liberta-o.

Há detrás das palavras, as escritas, pensamentos não pensados nos seus autores, que ficaram ali para serem gestados, passarinho novo em ninho, para alimentar, dar asas e voar, mas é quando voa que pensamento pensa, existe, mas descontrola, por que abrange, ramifica, voa e pousa, não dá para seguir todas as suas linhas num só momento e seus estratos, a um só tempo. Pensar não tem objeto, nem mesmo pensamos o pensamento, suas linhas, seus estratos não se revelam ao objeto pensado, só ao pensar. Pensar, como voar, intransitivo.

Escrever pensamento grades de palavras, linhas delicadas, não muito soltas, jamais apertadas, conexões leves, sutis. Ler descosturar, desembolar, soltar pensamentos, não no que lemos, no que está ali atrás, no branco da página, ali o pensamento, o escritor, desenhando palavras, depositou no fundo. É só misturar de leve, levantar de novo pequena turbidez, movimento de partículas, palavras saindo do papel, como ali foram colocadas, pensamento de novo em movimento, nosso agora, indo pelo caminho que o branco da página nos oferece.

 

Pre-escrito:

Não sou poeta

Solto palavras, ao vento

Pousam estáticas em pagina branca, tela

Cursor piscante

Não voam, não brilham

 

Solto o pensamento, não voa,

Lidas recolhidas, não me movimentam nada

Só a dor não contada, por que não há palavras pensadas para contar dor que não se pensa

 

Quanto esforço para compreender, prender em palavras,

fazer sentido sentir, particípio sem direção

do sentido pensar, partitivo sem conexão.

 

Sou duro com as palavras, não sei tratá-las, as que voam, não cativo, perdem-se

Mundo sem palavras, porque não há para tudo o dizer, indizível, por assim dizer, não digo, não falo

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