A esquina, o buraco e o eu.

Primeiro o buraco, boca, canal anal. Conceito Deleuze-Guattariano, pois devir-conceito, devir-buraco. Buraco é partícula, apenas partículas, trajetos de partículas, partículas, elementos moleculares, multiplicidades moleculares. Partículas intensas, areias movediças, trafegam em buracos, buraco tão partícula como o que por ele passa. Buraco não é ausência de partículas, mas partículas que andam mais rápido que a luz. Buraco negro dos físicos. Ânus e boca, transição de buraco, passagem, mundo externo passando por dentro, continuidade, invaginado, ânus-boca. Deuterostomio, equinodermos e nós, inversão de caminho evolutivo, caminho de inversão. Entramos pela saída, contra-mão natural não existe. Buraco-palavra, delimita sentido, faz caber, estabelece unidade, domestica a multiplicidade da coisa-buraco, buraco também poro, multiplo, buraco onde nasce pêlo, eriçam micro-chifres de rinocerontes, buraco então oco, também casca de chifre, não se lhe vê por fora, buraco quase sempre pede o dentro, mas há o fora, que lhe faz parte, também o buraco interno, veia, cavidade cardíaca. Membrana alveolar, mundo de troca, própria atmosfera, trazida substância, nariz-laringe-traquéia-bronquio caminho de buraco, paredes e ar que conduz. Palavra é um ou outro, buraco, caminho, caminhante, dissociam-se em significado, compreensão humana alijada do múltiplo do buraco. Ânus não é maxila, dissociam-se em sistemas distintos de compreensão, palavras divididas, unem-se na coisa, no corpo sem órgão.

Esquina, outra mesma coisa, palavra designa encruzilhada. Vou de novo ao Lévi-Strauss, eu é que construí esquina do seu escrito “crossroads’. Cruzamento de ruas, encruzilhada na vida, sentido que traduz o dicionário. Cito a passagem: “I appear to myself as the place where something is going on, but there is no ‘I’, no ‘me.’ Each of us is a kind of crossroads where things happen. The crossroads is purely passive, something happens there. A different thing, equally valid, happens elsewhere.” (Mith and meaning).

Cruzamento não é esquina, mas esquina acontece no cruzamento, povoa; não o ir e vir que via convida, o ficar, antes de seguir adiante ou virar, para os que vem e vão. Esquina encontro de ruas, mas não o encontro propriamente da via, a periferia do encontro, onde o encontro ocorre, o das pessoas, se diz, vá ver se estou na esquina, no cruzamento, por onde todos passam, há os que se encontram e permanecem na esquina. Bar da esquina, onde se dá o debate filosófico de botequim, só memória recente participa, verdadeira filosofia, vagueia, não permanece. Não permanecem na esquina as pessoas, mas nos pedem para ir vê-las na esquina, se lá estão. Não estão. Por lá não passam, não param. Não conhecem ruas ou caminhos. Esquinas territórios dos perambulantes, esses com alguma chance, se podem ver lá na esquina. Estando na esquina, podem ver o que por ela passa, que sentido toma, como anda, coisas que acontecem por ali. Outra perspectiva, a dos que transitam, sentido que tomam, pela operação de seus sentidos, efetivação de respostas, estão no acontecer. Perspectivas que não formam esquina conceitual, cruzamento conceitual, originam buracos de compreensão.

Compreensão de mundo é mesmo esse grande buraco, confundir perspectivas, esquina e cruzamento, dizer um querer falar do outro. Não por sofisticação semântica, mas por buraco mesmo de compreensão. Dos buracos de meus olhos, visionar o mundo, grande buraco, o maior que todos, o que cabe tudo o que vejo, comporta o mundo, o que designo real, visto. Cabidos em tão grande buraco, está a esquina de onde contemplo o cruzamento e seu movimento, e o cruzamento, por onde passando, percebo a estrutura de esquina. De um buraco, quanto mais se tira, maior ele fica. No buraco de compreensão, maior o buraco, menos compreensão. Maior o mundo, abranger esquina e cruzamento, menos compreensão. Cachoeira, água e barranco, conjunção e, vemos apreciamos, somamos, mas é intersecção (contribuição de Riobaldo).

Eu, fechado em mim na compreensão, confundo buracos entradas e saídas. Ver, ouvir, percepção, sensação, entrada de buraco de olho, de ouvido, aferente, em outro buraco saída, eferente, resposta. Entrar e sair, de sistema fechado, circuito, criar buraco, passagem, divisão de mundo, externo, interno, buracos de minha percepção. Buraco, vazio de percepção, ponto cego, não vejo, tapo, engano que não existe, podia deixar antever todo o mundo, grande buraco.

Eu, esquinas, buracos. Cérebro fechado, fendas, as sinapses, abro para ver, fechado na estrutura, como esquinas edificadas em torno ao cruzamento, apenas ali se transita, buraco de passagem, esquina túnel, ordena, restringe, delimita. Estreitamos buracos, fazemos caber, buraco, furo, falha de conceito. Buraco, saco ou cavidade, onde delimitamos para caber, é complexo, conceito primitivo. Conceito é plano, limites fluidos, elementos moventes. Limites também elementos, esses também limites. Ambos substância de planos, buraco plano, partículas moventes.

Difícil deixar ir o pensamento, cultivar buracos, por onde esvai. Fendas, esquinas, reconfigurações. Queremos limites, membranas, mundos distintos, interno-externo, mas é do buraco, o poro, a cavidade, a encruzilhada, onde  partículas movem, acham lugar, estacionam, chegam a constituir. O buraco, oco, vazio, assim o vemos, tubo designado por sua parede, mas sua atribuição é o seu oco.

Prisão, grades de pensamento, evitamos buracos, onde esvai o pensar, estancamos compartimentos, muito esforço no represar, fazer caber, conter. Buracos cegos, o do compartimento, paredes sem portas.

Eu, não-compartimento, não-identidade, buraco que a existência transita. E constitui.

 

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