Meio ou duplo

Há o poema de Drumond, meia verdade. Realidade dupla, ilusão em ensaio de Rosset. Portas, encondem nosso destino, disseram-me que dissera Borges, elas nos elegem. Clarice, fala de portas e heróis. Uma vez escrevi, não tenho medo de abri-las. Medo. É medo, o que sinto? Eu gente, corpo, carne. Coração vivo, palpita em descompasso, sacode, pula, acordado em meio a noite, o que me aguarda pela manhã?

Presente, seu passado, um futuro, transitando em portas, que se abrem, fecham, labirintos, de labirintos. Viver não está pronto. É no meu corpo vivo, em coração carne músculo tecido, sangue me correm as veias, artérias, não sou máquina. Reluto, é sofrer. Persistir em uma existência, abrigá-la, em meu corpo vivo, percorrendo em existir o mundo. É o viver. Portas, qual me traz o real, se não a que abro, que se abre, por que me escolhe.

Se divido, multiplico. Matemática, verdade meia, dupla metade. Se separo, somo, partícula lógica ou, união de conjunto, reúne elementos comuns e não comuns, todos. Se somo, intersecciono, partícula lógica e, defino subconjunto. Penso pelos contrários, contrário de um mundo que se diz o pensante, o que pode contra mim tudo, pelo que temo, desperta-me em hora de lobo, não uivos da madrugada, carne pulsátil, coração um só, cérebro hemisférios.

Hemisférios, meia esfera, me dividem miolos dominante, dominado, o pensar, a arte, o real que se me oferece, o que me oferece o real, não me dei dominado, não sou hemisfério, não sobrepujei, compêndios esquizo-psiquiátricos vêem dividido, o que é inteiro, por ser inteiro, múltiplo, labirinto de muitas passagens. De novo contrário.

Vaticínios, desairosos, o que me aguarda. O real, sempre ele, mas não por profecia, por encontro, e portas. O real é porta, a passagem. Improviso de decisão, não decisão, são outras portas, e outros reais, a verdade de meio em meio, pedaços de pessoas, dizendo a verdade de inteira metade.

Sofro o aguardo da manhã. Confio. Amanhece. Não fracassei. Resisto, no contrário, me entrego, sou mais de um, um inteiro possível, num e noutro momento, em sucessão, sou carne pulsátil, cardíaca, sacoleja, acorda-me os miolos, brancos, cinzentos, portas, pensamentos, não domesticados, desordenam, configurações sucessivas, labirintos que desenho, para transitar, em portas saídas.

Não sou igual, nem mesmo a mim mesmo, outro sou agora. Não acalmo. Há sofrer, resisto, resilieno, compadeço. Vejo. Longe e perto, a um foco. A tragédia, que cabe sentir alegria. As paredes e as portas fechadas, para todos, posso ir lá. Não é desobedecer, não se fecharam para mim. Mesmo as paredes sólidas, que há por trás? Pressupõem portas, outros reais, meias verdades, faces de moeda, cara e coroa, muito pouco, o real é movimento, estabiliza mas não é estático, noite-dia, moeda que se gira em seu eixo, movimento, faz o real de esfera, rastro de circunferência prata, que se impregna na retina. Pião rodando, imobilizado no movimento. É jogo de contrário.

Resisto. Silencio. Dialogo em pequeno texto. Reflito-me no contrário de mim mesmo. Espelho, espelho.

Amanhece, manhã cinzenta, sem chuva, esperança gris, tempo de inundações diluvianas. Busco saída, da vida, deste texto que me encaracolo, em desabafo, bom banho de manhã. Converso. Medo e espelho. O quem me diz em escrito é Riobaldo, livro portas, vereda. Acha-me saída: “o que o medo é: um produzido dentro da gente, um depositado; e que às horas se mexe, sacoleja, a gente pensa que é por causas: por isso ou por aquilo, coisas que só estão é fornecendo espelho. A vida é para esse sarro de medo se destruir; jagunço sabe. Outros contam de outra maneira.”

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