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	<title>Liberdade Reflexiva</title>
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	<description>Reflexões livres sobre temas da Patologia e a Educação.</description>
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		<title>O kaiser, o presidente, as presidentes e o patologista</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Jan 2012 10:23:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gil Pena</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diagnóstico]]></category>
		<category><![CDATA[História da Patologia]]></category>
		<category><![CDATA[Patologia]]></category>
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		<description><![CDATA[Primeiro, o patologista, esse eu mesmo, médico dedicado a análise do tecido, ao diagnóstico histológico. Sentado frente ao microscópio, observo as células, suas características, como estão arranjadas; é no nível da estrutura celular que observo as inflamações, as neoplasias e outras alterações do tecido. Antes da microscopia, fazemos a macroscopia: a olho nu avaliamos o material [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=377&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Primeiro, o patologista, esse eu mesmo, médico dedicado a análise do tecido, ao diagnóstico histológico. Sentado frente ao microscópio, observo as células, suas características, como estão arranjadas; é no nível da estrutura celular que observo as inflamações, as neoplasias e outras alterações do tecido. Antes da microscopia, fazemos a macroscopia: a olho nu avaliamos o material que utilizamos no diagnóstico, uma peça cirúrgica, uma biópsia. Em geral, é o cirurgião, o dermatologista, o endoscopista, outros profissionais médicos que obtêm essa amostra, que são trazidas a nós, o laboratório, para análise, algumas vezes pelo paciente ou familiar, outras por vias internas do hospital, diretamente do bloco cirúrgico, e o paciente nem se dá conta, de que o seu material chega até nós. Nós, no caso, o laboratório. Mas podia bem ser o consultório do patologista. É ao fragmento recebido que faço as minhas perguntas, e dele obtenho respostas. A partir de observações e de interpretações, que vão além do próprio quadro histológico, conjugando elementos do quadro clínico e de outros estudos (radiológicos, laboratoriais, etc), estabeleço e verifico hipóteses diagnósticas (Pena e Andrade, 2006 e 2009). Eu, anátomo-patologista, sou por vezes confundido com médicos da patologia clínica, os assim ditos laboratórios de patologia clínica ou de análises, onde se colhem e realizam exames de urina, fezes, sangue e outras amostras. Na patologia clínica, realizam-se, em geral, dosagens e contagens, procedimentos que podem ser automatizados, e que são realizados atualmente por máquinas, programadas para conduzir, elas próprias as diluições necessárias, as reações e as leituras. Na anatomia patológica ou patologia cirúrgica, são realizadas observações e interpretações individuais de caso a caso, trabalho eminentemente médico, muitas vezes complexo, melindroso, já que algumas vezes lidamos com casos inusitados, de apresentação fora do comum, e não há relação biunívoca entre o que observamos e a intepretação (ver Pena e Andrade, 2006 e 2009). Uma mesma alteração celular ou do tecido pode estar presente em diferentes doenças, bem como uma mesma doença, pode apresentar processos celulares distintos, conforme o sítio, estágio de evolução e eventuais tratamentos.</p>
<p>O trabalho de um patologista é bem específico, no sentido de que há ações no mundo médico que só se realizam por um patologista. As neoplasias, de modo geral, não se diagnosticam precisamente sem que um patologista analise, ao microscopio, a histologia da lesão. Para tanto, uma amostragem do tecido é realizada, por biópsia (retirada de um fragmento) ou numa peça cirúrgica, que pode englobar um ou mais órgãos acometidos pelo tumor. Todas vezes que escutamos que determinada pessoa tem um câncer, é segura a participação de um patologista no caso. Há algumas exceções, como as leucemias, onde as células neoplásicas circulam no sangue periférico ou podem ser aspiradas da medula óssea, sendo o diagnóstico conduzido por um hematologista. Mesmo nestes casos, entretanto, sempre que for realizada uma biópsia para avaliação histológica da medula, é o patologista quem faz o estudo.</p>
<p>O diagnóstico do câncer do presidente, na laringe, foi confirmado numa biópsia, a mesma tendo sido analisada por um patologista. Não sei quem foi, mas posso dizer que os médicos responsáveis pela quimioterapia e a radioterapia, ou eventualmente uma cirurgia, não conduziriam tratamentos tão agressivos sem ter um laudo firmado por um patologista atestando a natureza da lesão, o diagnóstico da neoplasia. Isso é trivial. A presidente do Brasil tratou-se de um linfoma, diagnosticado em um linfonodo biopsiado na região da axila. Não foi o oncologista, nem o cirurgião, nem o clínico geral, quem afirmou o diagnóstico de neoplasia, foi um patologista. Dada a responsabilidade destes casos, possivelmente mais de um. Além da análise morfológica, estudos adicionais, como a imunohistoquímica, são essenciais para a caracterização adequada e classificação. Nos casos de linfoma, a imunohistoquímica é imprescindível para a classificação definitiva. Mais uma vez, é o patologista quem conduz o estudo.</p>
<p>É o fato de estarmos em laboratórios, distantes do acesso do paciente, que faz do patologista um profissional até certo ponto desconhecido pelo público em geral, e até mesmo por membros da comunidade médica. O trabalho do patologista, contudo é imprescindível em muitos casos. Foi ele quem deu o diagnóstico do câncer do presidente e do linfoma da presidente, no caso a brasileira, mas nas notícias veiculadas por diferentes mídias, não se falou nada do patologista, nestes casos. Muito embora sem o diagnóstico de um patologista, não haveria como os médicos tratarem tão ilustres pacientes.</p>
<p>A medicina é mesmo uma profissão maravilhosa. Não é pecado nós, médicos, orgulharmo-nos de nossa atividade. Conduzir bem um caso, modificar o curso natural de uma doença, produz enorme satisfação. Em alguns casos, essa satisfação pessoal soma-se ao reconhecimento, à idéia que fazemos de ser grandes médicos, e ao tratarmos pessoas conhecidas, há inclusive repercussão na mídia, e o médico que conduz o caso, parece dar conta de tudo, mas em realidade ele não está sozinho, acreditem. Há um patologista, em algum laboratório, sem o qual não haveria diagnóstico, nem qualquer tratamento.</p>
<p>Nós, os patologistas, embora fundamentais, indispensáveis, não temos visibilidade, não aparecemos. Na maioria dos casos, acredito, nós não gostamos de aparecer. Em nossos laboratórios, lidamos frequentemente com os médicos que assistem aos pacientes, nosso conversar em geral é altamente técnico, relacionado a diagnósticos diferenciais, classificações, graduações, estadios, margens cirúrgicas. Não lidar diretamente com paciente cria uma dificuldade de comunicação, já que não estamos propensos a traduzir em linguagem mais acessível o vasto arcabouço técnico-científico que envolve o nosso trabalho. O mesmo ocorre ao lidar com a mídia, não somos providos de um didatismo apropriado ao comunicar com esses círculos exotéricos.</p>
<p>Bem, tudo está bem, o patologista segue quieto em seu canto-laboratório, fazendo diagnósticos. Houve resposta terapêutica, tudo evolui dentro do esperado, para o presidente antecessor e a presidente sucessora, assim é a maioria dos casos, o patologista, personagem central do diagnóstico, num e noutro caso, permanece encoberto. Longe dos olhos do paciente, da mídia. Também médicos, carregamos certo orgulho, pretendíamos um certo reconhecimento, o diagnóstico certo, o que propiciou um tratamento apropriado e eficaz, foi dado por um patologista, foi mesmo essencial, indispensável, mas não há menção a isso. Cercamo-nos de uma sensação de desvalorização de nosso trabalho, essa atividade médica tão necessária, elaborada e complexa, que não ganha repercussão. Quando digo que sou um patologista, as pessoas se confundem, imaginam-me num laboratório de análises, exames de sangue, etc¹.</p>
<p>Lá, no começo desse já não breve arrazoado, disse que o trabalho do patologista é complexo, melindroso, que um achado frequentemente associado a uma doença, pode estar presente em outras condições, e não raramente, em determinados casos, pode faltar um achado, porque as doenças não se manifestam igual, há variações, conforme a sua localização, o tempo de evolução, ou algum tratamento realizado. Haverá casos em que o diagnóstico, esse nosso exercício, não se confirmará no porvir, na resposta ao tratamento ou na avaliação de estudos subsequentes (Pena, 2010).</p>
<p>Isso ocorre. Aí, somente assim, é que os médicos assistentes, aqueles à frente da relação médico-paciente, em determinados casos sob os holofotes da mídia, é que desencobrem o patologista, agora sim o responsável pelo diagnóstico. É o caso recente da Presidente da Argentina, em que o diagnóstico de câncer da tireóide dado em um aspirado citológico, não se confirmou na peça cirúrgica da tireoidectomia. Agora é com o patologista: o interesse pelo diagnóstico patológico só sobreveio após o &#8220;erro&#8221;. Será mesmo erro? Algumas vezes nos vemos diante de uma pseudo-inclusão (é uma alteração do núcleo da célula, com alta especificidade para o diagnóstico de carcinoma papilar), sem saber se pseudo-pseudo ou verdadeira-pseudo. Na tireodite de Hashimoto, alterações citológicas semelhantes às de um carcinoma papilar podem estar presentes, sem presença de lesão tumoral propriamente dita. Em tempo recente, no nosso serviço, avaliamos em revisão um dito &#8220;erro&#8221;, em que a possibilidade de carcinoma papilar não se confirmou na histologia, a lâmina histológica apresentava nódulo interpretado como neoplasia de células oxifílicas, em que exame minucioso revelou raras células com verdadeiras-pseudo-inclusões (Figura 1). A análise do &#8220;erro&#8221; não pode ser feita sem conhecimento do caso específico. Está bem descrito que diversas lesões tireodianas podem apresentar alterações papilares-símiles, ora de maneira focal, ora mais difusamente. Saber muito implica conhecer muitas armadilhas da morfologia, saber que terreno onde pisamos é arenoso, movediço, que o trânsito entre a realidade do caso (da qual temos acesso a fragmento), a nossa observação e depois a interpretação não é sinalizado.</p>
<div id="attachment_388" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://liberdadereflexiva.files.wordpress.com/2012/01/pseudoinclusao-em-adenoma.jpg"><img class="size-medium wp-image-388" title="Uma rara verdadeira pseudo-inclusao vista em adenoma oxifílico da tireóide." src="http://liberdadereflexiva.files.wordpress.com/2012/01/pseudoinclusao-em-adenoma.jpg?w=300&#038;h=225" alt="" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Uma rara verdadeira pseudo-inclusao vista em adenoma oxifílico da tireóide.</p></div>
<p>É também o caso do câncer do Kaiser alemão Friedrich III, falecido de cancer da laringe (a mesma doença do nosso presidente) em 15 de junho de 1888, cerca de um mês após assumir o trono do então império prussiano. Virchow, o pai da patologia, foi quem avaliou as biópsias obtidas e, por repetidas vezes, não confirmou o diagnóstico de uma neoplasia maligna, fato que ficou bem evidente com a evolução do caso e confirmado inclusive pela necropsia. Ao longo de mais de 100 anos, nós patologistas conjecturamos o que poderia ter causado esse &#8220;erro&#8221; diagnóstico. Virchow se referia à lesão como um espessamento verrucoso da mucosa, pomposamente denominado &#8220;Pachydermia verrucosa&#8221;.</p>
<p>A ciência médica é cercada de incertezas. No afã de tudo conhecer, inclusive nossa própria ignorância, classificamos  até o que não sabemos (Anderson et al 199o):</p>
<ul>
<li>Incerteza derivada das limitações do conhecimento científico da época em que se vive;</li>
<li>Incerteza que surge de domínio imperfeito de tudo o que é conhecido por meio da ciência;</li>
<li>Incerteza decorrente da incapacidade em distinguir entre a própria ignorância e as limitações da ciência.</li>
</ul>
<p>Virchow era &#8220;o&#8221; patologista de seu tempo. Boa parte de nosso conhecimento, ainda hoje, foi sistematizado e organizado por ele, sendo considerado, por assim dizer, o fundador da disciplina patologia, ramo da medicina. É claro que não foi uma atividade individual do Virchow, mas de toda uma comunidade de cientistas e médicos de seu tempo. Por certo, a incerteza de Virchow era a ignorância da própria ciência. Acredita-se que o Kaiser possuía um tipo especial de cancer, com crescimento exuberante, mas pouco infiltrativo, de difícil diagnóstico em biópsias que representem apenas a porção superficial da lesão. Essa forma particular de cancer, o carcinoma verrucoso, só veio a ser caracterizada por Lauren Ackerman, um patologista cirúrgico americano, com uma publicação em 1948. É provável ainda que o Kaiser não tenha tido uma forma pura, mas um carcinoma híbrido, com áreas de padrão verrucoso ao lado de áreas convencionais  (Pena e Andrade, 2011).</p>
<p>O exercício da patologia envolve relações dinâmicas entre territórios e mapas. Há terrenos desconhecidos não mapeados. Os mapas disponíveis refletem o conhecimento incompleto de determinados territórios, em fragmentos provisoriamente conectados. O território que mapeamos, nosso organismo biológico, é mutável pelo evoluir da doença, pelo tratamento, outras comorbidades e nosso próprio modo de vida.</p>
<p>Por tudo isso, uma humildade socrática, onde saber muito é ter ciência de vasta ignorância, é que combina mais com o patologista. E como a virtude faz par com pecado, concedo sentir pequeno orgulho de lidar com tão bela e vasta ciência. Se não alcançamos reconhecimento ou repercussão pelo que fazemos, é por que lidamos também com a arte de ser patologista, na fronteira do imponderável, o desconhecido, as incertezas, e ainda assim desenhamos mapas e orientamos caminhos, trilhados por nossos pacientes, ilustres ou não, sob a condução de seus médicos assistentes.</p>
<p>Referências:</p>
<p>Pena GP, Andrade-Filho Jde S. Pachydermia verrucosa…of the (very) bad kind! Virchows Arch. 2011 Sep;459(3):351-2.</p>
<p>Pena GP, Andrade-Filho Jde S. How does a pathologist make a diagnosis? Arch Pathol Lab Med. 2009 Jan;133(1):124-32. (disponível em <a href="http://www.archivesofpathology.org/doi/full/10.1043/1543-2165-133.1.124">http://www.archivesofpathology.org/doi/full/10.1043/1543-2165-133.1.124</a>)</p>
<p>PENA, GP; ANDRADE-FILHO, J de S. Implicações cognitivas, filosóficas e educativas do trabalho do patologistaCognitive, philosophical and educational implications of the work of the pathologist. Rev. bras. educ. med., Rio de Janeiro, v. 30, n. 2, 2006 . Available from <a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0100-55022006000200010&amp;lng=en&amp;nrm=iso">http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0100-55022006000200010&amp;lng=en&amp;nrm=iso</a>.</p>
<p>PENA, GP. O relato de caso como situação gnosiológica: reflexões sobre a prática diagnóstica em patologia a partir de um caso de abetalipoproteinemia. Rev. bras. educ. med., Rio de Janeiro, v. 34, n. 4, Dec. 2010 . Available from <a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0100-55022010000400019&amp;lng=en&amp;nrm=iso">http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0100-55022010000400019&amp;lng=en&amp;nrm=iso</a></p>
<p>Anderson RE, Fox RC, Hill RB. Medical uncertainty and the autopsy: occult benefits for students. Hum Pathol. 1990 Feb;21(2):128-35. (reencontrei a referencia no recente livro de JE Pittella &#8211; Construindo o saber da ciência &#8211; COOPMED, 2012 &#8211; eu próprio havia utilizado o artigo em uma sessão científica apresentada logo no meu início de residência).</p>
<p>_____</p>
<p>1-Essa confusão não é trivial. O não entendimento de que o meu estudo de cada biópsia ou material, é feito individualmente, caso a caso, e representa uma atividade de observar, procurar, interpretar, buscar conclusões, dar suporte a essas conclusões, orientar condutas (tratamentos, nova investigação, outra biópsia, um estudo adicional de imunohistoquímica, mostrar o caso a outro patologista para opinião). As dosagens e contagens realizadas no sangue são conduzidas numa máquina, as pessoas tendem a imaginar que eu posso automatizar a minha atividade. Assim querem fazer acreditar as fontes pagadoras, colocando-nos no saco comum de outros serviços auxiliares de diagnóstico, onde é a máquina que realiza o hemograma, a bioquímica e a sorologia, mas já disse, isso é outra coisa, nada a ver com a minha patologia.</p>
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		<title>Meio ou duplo</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Jan 2012 09:57:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gil Pena</dc:creator>
				<category><![CDATA[Incursão filosófica]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Há o poema de Drumond, meia verdade. Realidade dupla, ilusão em ensaio de Rosset. Portas, encondem nosso destino, disseram-me que dissera Borges, elas nos elegem. Clarice, fala de portas e heróis. Uma vez escrevi, não tenho medo de abri-las. Medo. É medo, o que sinto? Eu gente, corpo, carne. Coração vivo, palpita em descompasso, sacode, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=366&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há o poema de Drumond, meia verdade. Realidade dupla, ilusão em ensaio de Rosset. Portas, encondem nosso destino, disseram-me que dissera Borges, elas nos elegem. Clarice, fala de portas e heróis. Uma vez escrevi, não tenho medo de abri-las. Medo. É medo, o que sinto? Eu gente, corpo, carne. Coração vivo, palpita em descompasso, sacode, pula, acordado em meio a noite, o que me aguarda pela manhã?</p>
<p>Presente, seu passado, um futuro, transitando em portas, que se abrem, fecham, labirintos, de labirintos. Viver não está pronto. É no meu corpo vivo, em coração carne músculo tecido, sangue me correm as veias, artérias, não sou máquina. Reluto, é sofrer. Persistir em uma existência, abrigá-la, em meu corpo vivo, percorrendo em existir o mundo. É o viver. Portas, qual me traz o real, se não a que abro, que se abre, por que me escolhe.</p>
<p>Se divido, multiplico. Matemática, verdade meia, dupla metade. Se separo, somo, partícula lógica <span style="text-decoration:underline;">ou</span>, união de conjunto, reúne elementos comuns e não comuns, todos. Se somo, intersecciono, partícula lógica <span style="text-decoration:underline;">e</span>, defino subconjunto. Penso pelos contrários, contrário de um mundo que se diz o pensante, o que pode contra mim tudo, pelo que temo, desperta-me em hora de lobo, não uivos da madrugada, carne pulsátil, coração um só, cérebro hemisférios.</p>
<p>Hemisférios, meia esfera, me dividem miolos dominante, dominado, o pensar, a arte, o real que se me oferece, o que me oferece o real, não me dei dominado, não sou hemisfério, não sobrepujei, compêndios esquizo-psiquiátricos vêem dividido, o que é inteiro, por ser inteiro, múltiplo, labirinto de muitas passagens. De novo contrário.</p>
<p>Vaticínios, desairosos, o que me aguarda. O real, sempre ele, mas não por profecia, por encontro, e portas. O real é porta, a passagem. Improviso de decisão, não decisão, são outras portas, e outros reais, a verdade de meio em meio, pedaços de pessoas, dizendo a verdade de inteira metade.</p>
<p>Sofro o aguardo da manhã. Confio. Amanhece. Não fracassei. Resisto, no contrário, me entrego, sou mais de um, um inteiro possível, num e noutro momento, em sucessão, sou carne pulsátil, cardíaca, sacoleja, acorda-me os miolos, brancos, cinzentos, portas, pensamentos, não domesticados, desordenam, configurações sucessivas, labirintos que desenho, para transitar, em portas saídas.</p>
<p>Não sou igual, nem mesmo a mim mesmo, outro sou agora. Não acalmo. Há sofrer, resisto, resilieno, compadeço. Vejo. Longe e perto, a um foco. A tragédia, que cabe sentir alegria. As paredes e as portas fechadas, para todos, posso ir lá. Não é desobedecer, não se fecharam para mim. Mesmo as paredes sólidas, que há por trás? Pressupõem portas, outros reais, meias verdades, faces de moeda, cara e coroa, muito pouco, o real é movimento, estabiliza mas não é estático, noite-dia, moeda que se gira em seu eixo, movimento, faz o real de esfera, rastro de circunferência prata, que se impregna na retina. Pião rodando, imobilizado no movimento. É jogo de contrário.</p>
<p>Resisto. Silencio. Dialogo em pequeno texto. Reflito-me no contrário de mim mesmo. Espelho, espelho.</p>
<p>Amanhece, manhã cinzenta, sem chuva, esperança gris, tempo de inundações diluvianas. Busco saída, da vida, deste texto que me encaracolo, em desabafo, bom banho de manhã. Converso. Medo e espelho. O quem me diz em escrito é Riobaldo, livro portas, vereda. Acha-me saída: &#8220;o que o medo é: um produzido dentro da gente, um depositado; e que às horas se mexe, sacoleja, a gente pensa que é por causas: por isso ou por aquilo, coisas que só estão é fornecendo espelho. A vida é para esse sarro de medo se destruir; jagunço sabe. Outros contam de outra maneira.&#8221;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/liberdadereflexiva.wordpress.com/366/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=366&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A esquina, o buraco e o eu.</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Jan 2012 09:41:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gil Pena</dc:creator>
				<category><![CDATA[Incursão filosófica]]></category>

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		<description><![CDATA[Primeiro o buraco, boca, canal anal. Conceito Deleuze-Guattariano, pois devir-conceito, devir-buraco. Buraco é partícula, apenas partículas, trajetos de partículas, partículas, elementos moleculares, multiplicidades moleculares. Partículas intensas, areias movediças, trafegam em buracos, buraco tão partícula como o que por ele passa. Buraco não é ausência de partículas, mas partículas que andam mais rápido que a luz. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=352&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Primeiro o buraco, boca, canal anal. Conceito Deleuze-Guattariano, pois devir-conceito, devir-buraco. Buraco é partícula, apenas partículas, trajetos de partículas, partículas, elementos moleculares, multiplicidades moleculares. Partículas intensas, areias movediças, trafegam em buracos, buraco tão partícula como o que por ele passa. Buraco não é ausência de partículas, mas partículas que andam mais rápido que a luz. Buraco negro dos físicos. Ânus e boca, transição de buraco, passagem, mundo externo passando por dentro, continuidade, invaginado, ânus-boca. Deuterostomio, equinodermos e nós, inversão de caminho evolutivo, caminho de inversão. Entramos pela saída, contra-mão natural não existe. Buraco-palavra, delimita sentido, faz caber, estabelece unidade, domestica a multiplicidade da coisa-buraco, buraco também poro, multiplo, buraco onde nasce pêlo, eriçam micro-chifres de rinocerontes, buraco então oco, também casca de chifre, não se lhe vê por fora, buraco quase sempre pede o dentro, mas há o fora, que lhe faz parte, também o buraco interno, veia, cavidade cardíaca. Membrana alveolar, mundo de troca, própria atmosfera, trazida substância, nariz-laringe-traquéia-bronquio caminho de buraco, paredes e ar que conduz. Palavra é um ou outro, buraco, caminho, caminhante, dissociam-se em significado, compreensão humana alijada do múltiplo do buraco. Ânus não é maxila, dissociam-se em sistemas distintos de compreensão, palavras divididas, unem-se na coisa, no corpo sem órgão.</p>
<p>Esquina, outra mesma coisa, palavra designa encruzilhada. Vou de novo ao Lévi-Strauss, eu é que construí esquina do seu escrito &#8220;crossroads&#8217;. Cruzamento de ruas, encruzilhada na vida, sentido que traduz o dicionário. Cito a passagem: &#8220;I appear to myself as the place where something is going on, but there is no &#8216;I&#8217;, no &#8216;me.&#8217; Each of us is a kind of crossroads where things happen. The crossroads is purely passive, something happens there. A different thing, equally valid, happens elsewhere.&#8221; (Mith and meaning).</p>
<p>Cruzamento não é esquina, mas esquina acontece no cruzamento, povoa; não o ir e vir que via convida, o ficar, antes de seguir adiante ou virar, para os que vem e vão. Esquina encontro de ruas, mas não o encontro propriamente da via, a periferia do encontro, onde o encontro ocorre, o das pessoas, se diz, vá ver se estou na esquina, no cruzamento, por onde todos passam, há os que se encontram e permanecem na esquina. Bar da esquina, onde se dá o debate filosófico de botequim, só memória recente participa, verdadeira filosofia, vagueia, não permanece. Não permanecem na esquina as pessoas, mas nos pedem para ir vê-las na esquina, se lá estão. Não estão. Por lá não passam, não param. Não conhecem ruas ou caminhos. Esquinas territórios dos perambulantes, esses com alguma chance, se podem ver lá na esquina. Estando na esquina, podem ver o que por ela passa, que sentido toma, como anda, coisas que acontecem por ali. Outra perspectiva, a dos que transitam, sentido que tomam, pela operação de seus sentidos, efetivação de respostas, estão no acontecer. Perspectivas que não formam esquina conceitual, cruzamento conceitual, originam buracos de compreensão.</p>
<p>Compreensão de mundo é mesmo esse grande buraco, confundir perspectivas, esquina e cruzamento, dizer um querer falar do outro. Não por sofisticação semântica, mas por buraco mesmo de compreensão. Dos buracos de meus olhos, visionar o mundo, grande buraco, o maior que todos, o que cabe tudo o que vejo, comporta o mundo, o que designo real, visto. Cabidos em tão grande buraco, está a esquina de onde contemplo o cruzamento e seu movimento, e o cruzamento, por onde passando, percebo a estrutura de esquina. De um buraco, quanto mais se tira, maior ele fica. No buraco de compreensão, maior o buraco, menos compreensão. Maior o mundo, abranger esquina e cruzamento, menos compreensão. Cachoeira, água e barranco, conjunção e, vemos apreciamos, somamos, mas é intersecção (contribuição de Riobaldo).</p>
<p>Eu, fechado em mim na compreensão, confundo buracos entradas e saídas. Ver, ouvir, percepção, sensação, entrada de buraco de olho, de ouvido, aferente, em outro buraco saída, eferente, resposta. Entrar e sair, de sistema fechado, circuito, criar buraco, passagem, divisão de mundo, externo, interno, buracos de minha percepção. Buraco, vazio de percepção, ponto cego, não vejo, tapo, engano que não existe, podia deixar antever todo o mundo, grande buraco.</p>
<p>Eu, esquinas, buracos. Cérebro fechado, fendas, as sinapses, abro para ver, fechado na estrutura, como esquinas edificadas em torno ao cruzamento, apenas ali se transita, buraco de passagem, esquina túnel, ordena, restringe, delimita. Estreitamos buracos, fazemos caber, buraco, furo, falha de conceito. Buraco, saco ou cavidade, onde delimitamos para caber, é complexo, conceito primitivo. Conceito é plano, limites fluidos, elementos moventes. Limites também elementos, esses também limites. Ambos substância de planos, buraco plano, partículas moventes.</p>
<p>Difícil deixar ir o pensamento, cultivar buracos, por onde esvai. Fendas, esquinas, reconfigurações. Queremos limites, membranas, mundos distintos, interno-externo, mas é do buraco, o poro, a cavidade, a encruzilhada, onde  partículas movem, acham lugar, estacionam, chegam a constituir. O buraco, oco, vazio, assim o vemos, tubo designado por sua parede, mas sua atribuição é o seu oco.</p>
<p>Prisão, grades de pensamento, evitamos buracos, onde esvai o pensar, estancamos compartimentos, muito esforço no represar, fazer caber, conter. Buracos cegos, o do compartimento, paredes sem portas.</p>
<p>Eu, não-compartimento, não-identidade, buraco que a existência transita. E constitui.</p>
<p>&nbsp;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/liberdadereflexiva.wordpress.com/352/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=352&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Escrever</title>
		<link>http://liberdadereflexiva.wordpress.com/2011/11/20/escrever/</link>
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		<pubDate>Sun, 20 Nov 2011 10:13:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gil Pena</dc:creator>
				<category><![CDATA[Incursão filosófica]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Escrevo como recurso de ser autor de pensamento, meio de capturá-lo, mantê-lo próximo, um instante. Leitor, capto pensamento contido no voar, observo, proporciona possibilidade de compreensão, não pelo recurso da palavra, mas pelo artíficio de distanciar-se dela, aproximando-se do pensamento ali, vivo, movimentando-se. Beija-flor que se acolhe com as mâos, vivo, leve, vibrando. O escritor deita [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=346&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Escrevo como recurso de ser autor de pensamento, meio de capturá-lo, mantê-lo próximo, um instante.</p>
<p>Leitor, capto pensamento contido no voar, observo, proporciona possibilidade de compreensão, não pelo recurso da palavra, mas pelo artíficio de distanciar-se dela, aproximando-se do pensamento ali, vivo, movimentando-se. Beija-flor que se acolhe com as mâos, vivo, leve, vibrando.</p>
<p>O escritor deita o pensamento em palavras, leitor levanta das palavras o pensamento ali contido, liberta-o.</p>
<p>Há detrás das palavras, as escritas, pensamentos não pensados nos seus autores, que ficaram ali para serem gestados, passarinho novo em ninho, para alimentar, dar asas e voar, mas é quando voa que pensamento pensa, existe, mas descontrola, por que abrange, ramifica, voa e pousa, não dá para seguir todas as suas linhas num só momento e seus estratos, a um só tempo. Pensar não tem objeto, nem mesmo pensamos o pensamento, suas linhas, seus estratos não se revelam ao objeto pensado, só ao pensar. Pensar, como voar, intransitivo.</p>
<p>Escrever pensamento grades de palavras, linhas delicadas, não muito soltas, jamais apertadas, conexões leves, sutis. Ler descosturar, desembolar, soltar pensamentos, não no que lemos, no que está ali atrás, no branco da página, ali o pensamento, o escritor, desenhando palavras, depositou no fundo. É só misturar de leve, levantar de novo pequena turbidez, movimento de partículas, palavras saindo do papel, como ali foram colocadas, pensamento de novo em movimento, nosso agora, indo pelo caminho que o branco da página nos oferece.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pre-escrito:</p>
<p>Não sou poeta</p>
<p>Solto palavras, ao vento</p>
<p>Pousam estáticas em pagina branca, tela</p>
<p>Cursor piscante</p>
<p>Não voam, não brilham</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Solto o pensamento, não voa,</p>
<p>Lidas recolhidas, não me movimentam nada</p>
<p>Só a dor não contada, por que não há palavras pensadas para contar dor que não se pensa</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quanto esforço para compreender, prender em palavras,</p>
<p>fazer sentido sentir, particípio sem direção</p>
<p>do sentido pensar, partitivo sem conexão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sou duro com as palavras, não sei tratá-las, as que voam, não cativo, perdem-se</p>
<p>Mundo sem palavras, porque não há para tudo o dizer, indizível, por assim dizer, não digo, não falo</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/liberdadereflexiva.wordpress.com/346/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=346&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>O Anta</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Nov 2011 10:05:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gil Pena</dc:creator>
				<category><![CDATA[Incursão filosófica]]></category>

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		<description><![CDATA[Em outro círculo, era o Anta, mas dele era exterior, como a outros. Talvez fosse o próprio fato de ser visto sempre alheio aos bandos, turmas, cardumes, matilhas, enxames, coletivos, que lhe produziu a apelação. Tapir. Dois nomes, o mesmo bicho, mas era mesmo o Anta. Tomassem-no por bobo, mas optaram Anta. Pouco se sabe das [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=343&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em outro círculo, era o Anta, mas dele era exterior, como a outros. Talvez fosse o próprio fato de ser visto sempre alheio aos bandos, turmas, cardumes, matilhas, enxames, coletivos, que lhe produziu a apelação. Tapir. Dois nomes, o mesmo bicho, mas era mesmo o Anta. Tomassem-no por bobo, mas optaram Anta.</p>
<p>Pouco se sabe das antas, que dirá dos Antas, substantivo que adjetiva certos membros da espécie humana, por outros grupos da mesma espécie. Não é fácil capturar na anta, o bicho, o atributo que se transfere ao Anta, por analogia ou associação. Peso não era, fosse, seria o baleia. Ouso imaginar que fosse por atributo intelectual das antas, o seu silêncio contemplativo, a memória sempre recente, fugidia, mesmo as recordações antigas, atávicas, eram sempre revolvidas, remisturadas, no sentido de se perderem, evanescerem. Nuvens. Limpar o céu. Dia bom de pensar é dia de céu azul, bela manhã de abril, tardes em setembro. Nada para parar o pensamento, as soluções se produzem e se desfazem, não armazena, não carrega. Céu limpo.</p>
<p>O anta é sozinho, pois raros são os antas, e antas, por desprendimento de pensamento, não se prendem ou se vinculam. Propriedade de anta é não ser pigmaleão, não falo do bicho, mas da gente, que se insere no grupo e cria em grupo a sua identidade de ser gente. O Anta é o não ser. Quem é o Anta, não se sabe, pois é mistério vazio, transparente, céu limpo, azul. Nessa identidade fluida, dificilmente se perceberia o Anta como Anta, resiste a identificar-se, tratar-se como instância, convive em si na multiplicidade de se ser, pois que é, em verbo reflexivo.</p>
<p>Definiu-se como não-Anta, embora fosse o Anta. Fosse não fosse ainda muitas outras coisas, podia ainda ser mais que o não ser. Ser aprisiona na falsa ilusão de identidade, do eu, Anta, não-eu. Indefiniu-se como o Anta, o não-Anta.</p>
<p>Bom mesmo é o dia de céu azul, dia limpo, dia da anta, anta o bicho, calma, serenidade. Caber o não cabido, ser o não-ser. Hamlet, em conjunto da teoria, era ou não era, conjunção ou tratada na lógica da união, é ser ou não ser, conjunto de tudo o possível mais o não-possível. E essa não é a questão, ser e não ser, interseção, eis a questão.</p>
<p>Questão que se há de resolver, na imanência, sem recorrer a planos transbordantes transcendentes, onde acomodamos o não cabido. Interseção, conjunto vazio, neste, noutro plano.</p>
<p>Conjunto vazio, desterritório, ir deste a noutros planos, projetar um sobre o outro, em linhas de fuga, perspectiva imanente. O Anta contempla o fluir de um a outro plano, desenha conceitos, memória curta, provisória, evanescem, vê, em sobrevôo, outros círculos, circos, cercas, encerram  complexos pseudo-conceitos, memória permanente, onde o que não cabe, nem sequer transcende, olhem, lá está o Anta.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/liberdadereflexiva.wordpress.com/343/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=343&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>A esquina Bachelard</title>
		<link>http://liberdadereflexiva.wordpress.com/2011/10/20/a-esquina-bachelard/</link>
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		<pubDate>Fri, 21 Oct 2011 00:20:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gil Pena</dc:creator>
				<category><![CDATA[Consciência crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi incrível encontrar o livro(1). Desculpem-me a minha prévia ignorância, mas nunca tinha ouvido falar de Bachelard: encontrei-me com o autor, por acaso, na estante da livraria. Na contracapa, o livro devolvia-me preocupações que já germinavam em meu espírito: o saber científico, o formação de conceitos, o desenvolvimento de um espírito crítico. Já em suas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=338&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foi incrível encontrar o livro(1). Desculpem-me a minha prévia ignorância, mas nunca tinha ouvido falar de Bachelard: encontrei-me com o autor, por acaso, na estante da livraria. Na contracapa, o livro devolvia-me preocupações que já germinavam em meu espírito: o saber científico, o formação de conceitos, o desenvolvimento de um espírito crítico.</p>
<p>Já em suas primeiras páginas, Bachelard faz uma correlação entre a epistemologia e a pedagogia, na noção de obstáculo: justo o que já vinha debatendo eu comigo mesmo, quando dizia que “aprender é construir caminhos”. A concepção histórica da construção do caminho é o que permitiria originar um entendimento crítico da ciência. A “noção de obstáculo epistemológico pode ser estudada no desenvolvimento histórico do pensamento científico e na prática da educação” (p.21). Nesse ponto, trago Vigotsky para o diálogo, com sua pedagogia da formação do conceito científico, em sua construção histórica, em que as noções empíricas cotidianas, espontâneas, são confrontadas com o saber acadêmico, derrubando obstáculos já sedimentados produzidos naquele viver cotidiano.</p>
<p>Para Bachelard, “a noção de obstáculo epistemológico é desconhecida” (p. 23). Não se trata de adquirir uma cultura, mas de mudar a cultura, derrubar obstáculos já sedimentados pela vida cotidiana. Há ruptura, não continuidade, entre a observação e a experimentação (p. 25). Interessante o diálogo com Fleck, para quem a observação inicial é inadequada, e seguida de uma experiência irracional: a experiência surge como desafio à experimentação, penso eu lá com meus botões.</p>
<p>Bachelard acrescenta “mais vale a ignorância total do que um conhecimento esvaziado de seu princípio fundamental” (p.50).</p>
<p>Pouco adiante, cita que “o conhecimento comum é a inconsciência de si” e que essa inconsciência pode também atingir o pensamento científico. Para tratar racionalmente um problema, ou falar em racionalização da experiência, não basta encontrar <em>uma razão</em> para <em>um fato.</em> Razão atividade psicológica politrópica: preciso revirar os problemas, ligar uns aos outros, fazê-los proliferar: a experiência precisa estar inserida num jogo de razões múltiplas. Ficam contra as convicções primeiras, a necessidade de certeza imediata, a crença doce de que o conhecimento do qual partimos era certo. “É preciso reavivar a crítica e pôr o conhecimento em contato com as condições que lhe deram origem, voltar continuamente a esse ‘estado nascente’ (&#8230;) ao momento em que a resposta saiu do problema” (p.51).</p>
<p>A avaliação crítica do conhecimento necessita olhar mais sagaz, observando o observador, permanecer a espreita das razões não elaboradas racionalmente. Detectar a falsa hierarquia, traços impostos pela fantasia inconsciente do narrador (p.57).</p>
<p>Ciência é caminho, construção, ruptura, desvio de obstáculos.</p>
<p>Em outro caminho, outra encruzilhada, foi Rheinberger que me trouxe novamente Bachelard, então já meu conhecido. Se trilho o caminho certo, em diferentes encruzilhadas, não posso decidir de antemão. É o próprio Bachelard que me alerta (p. 17): “O real nunca é ‘o que se poderia achar’ mas é sempre o que se deveria ter pensado. O pensamento empírico torna-se claro <em>depois</em>, quando o conjunto de argumentos fica estabelecido”. O conhecer dá-se <em>contra </em>conhecimento anterior. A clareza, nos diz Rheinberger, é mero produto histórico do trabalho de purificação da mente científica. Abre-se um caminho, para depois conhecê-lo. O cientista faz então referência ao seu trilho, obtendo daí conceitos que são relevantes para si próprios, na criação experimental de seus objetos de ciência; a ciência não apenas se aplica a pedaço da realidade. É da ciência trilhar e produzir seu caminho, mesmo quando é a realidade o que oferece resistência.</p>
<p>“Tal como a vemos, a natureza da realidade, dada a inexaustabilidade do desconhecido, é eminentemente tal que nos convida a prosseguir a pesquisa sem fim. Seu próprio ser reside na resistência ao conhecimento. Tomemos então como um axioma epistemológico que o nosso conhecimento é inerentemente aberto. (&#8230;) Como a história da ciência nos ensina, todo grande passo em direção a uma realidade definitiva tem mostrado que ela é descoberta em uma região totalmente inesperada” (citado por Rheinberger).</p>
<p>A ciência precisa romper com seu fazer científico, em linhas intermináveis, sem fim, lineares, num encadeamento de perguntas feitas a respostas já dadas. Caminhos que se abrem por trilhas já mapeadas. Perguntas-obstáculo oferecidas a respostas prontas, colocam-se como entrave epistemológico.</p>
<p>Precisamos reconfigurar a ciência, falo de mapas de pensamento, reconfiguração de realidade, não mero decalque unidimensional. A ciência, a indagação científica, necessita aprender a navegar em plano multidimensional.</p>
<p>Vejo este texto como pequeno exercício neste sentido: o que procurava exatamente, quando encontrei o Bachelard, não mais me lembro, mas o encontro não é mero acaso. Em sua leitura, vou me encadeando no seu texto, mas não linear. Seu texto me remonta a outros pensamentos, outros voos, encontro assento em outros autores, volto a outro ponto, já o leio com outro olhar, o livro, mesmo o escrito há tempos, reconfigura-se pela leitura que dele faço.</p>
<p>E essas coisas se misturam, embolam, originam perguntas, caminhos que percorro com pensamento, ainda mais rápido que consigo escrever, linhas de fuga, desenhos rápidos, configurações mentais que evanescem sem registro.</p>
<p>Alguma coisa eu registro, estranha a sensação quando leio o registrado, devolve-me clareza ou obscuridade que não reconheço produzidas por mim, mas acontecidas em alguma esquina da vida, onde estive e ali ficou escrito.</p>
<p>Outras esquinas no mundo, muitas, pequenos bulbos. Reconfigurar, implica descentramento.</p>
<p>1- Gaston Bachelard – A formação do espírito científico. Contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996 (original francês de 1938). Além de conexões com Vigotsky, Rheinberger e Fleck  mencionadas no texto, há pontos de contato com Freire, Deleuze &amp; Guattari, Lévi-Strauss.</p>
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		<title>Visão de mundo</title>
		<link>http://liberdadereflexiva.wordpress.com/2011/09/25/visao-de-mundo/</link>
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		<pubDate>Sun, 25 Sep 2011 12:08:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gil Pena</dc:creator>
				<category><![CDATA[Consciência crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Evolução]]></category>
		<category><![CDATA[Imunologia]]></category>

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		<description><![CDATA[A revista Ciência Hoje (setembro de 2011) traz interessante artigo, &#8220;Caiu na rede é invasor &#8211; armadilhas geradas por neutrófilos prendem e matam micro-organismos&#8221;. É descrito mecanismo em que neutrófilos, por processo de netose, expelem um plasma de ácidos nucléicos e histonas, além de conteúdo dos grânulos citoplasmáticos, formando emaranhado extracelular,  ao qual microorganismos se aderem, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=329&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A revista Ciência Hoje (setembro de 2011) traz interessante artigo, &#8220;Caiu na rede é invasor &#8211; armadilhas geradas por neutrófilos prendem e matam micro-organismos&#8221;.</p>
<p>É descrito mecanismo em que neutrófilos, por processo de netose, expelem um plasma de ácidos nucléicos e histonas, além de conteúdo dos grânulos citoplasmáticos, formando emaranhado extracelular,  ao qual microorganismos se aderem, acabando por morrer, assim como o próprio neutrófilo que gerou o fenômeno.</p>
<p>A netose é morte celular, somando-se às bem conhecidas necrose e apoptose. A netose produz a NET (da sigla neutrophil extracelular traps), que junta-se aos outros mecanismos de ataque neutrofílico, a fagocitose e a degranulação. A estranha denominação netose, vem de NET, a denominação dada à armadilha produzida neste processo, mais o sufixo ose, o mesmo presente na necrose e apoptose.</p>
<p> O fenômeno é interessante, do ponto de vista biológico, mas gostaria de ater à descrição dada ao fenômeno, que traz embutida uma visão antrocêntrica, teleológica, da natureza, em que fenômenos adquirem significado a partir de tradução para a linguagem humana, estando implícito um propósito, um projeto, um desenho, como se o grande arquiteto da natureza projetasse a vida, como nós mesmos projetamos, dentro da nossa própria visão de mundo.</p>
<p>Na biologia, traduzimos em linguagem fenômenos de reconhecimento, ataque, defesa, invasores, inimigos. Nesse contexto, não é difícil imaginar armadilhas, ardilosamente desenhadas, para prender e matar microorganismos.</p>
<p>A compreensão do fenômeno, gerada nestas explicações, parecem depender muito mais da visão que temos do mundo, do que do fenômeno biológico em si mesmo.</p>
<p>Essas analogias ou metáforas explicativas geram-se dentro do espaço cultural humano, na linguagem, e traduzem-se em compreensões talvez equivocadas do fenômeno biológico. Noções como adaptação e seleção, por exemplo, podem ser melhor compreendidas a partir da visão de mundo humana, do que dos próprios fenômenos biológicos naturais. Há muita confusão de domínios, entre o fenômeno que queremos descrever, e a descrição que damos ao fenômeno. A descrição que damos vem carregada do viés humano, da nossa visão de mundo, e a natureza é feita caber dentro dela, mais do que a natureza nos seus ricos fenômenos, nos ensine que a mágica da vida, da biologia ciência, seria mesmo alargar a visão estreita, em que apertamos tudo o que queremos compreender, dentro de mesmas concepções e estilos de pensamento.</p>
<p>Não é claro, pois estamos imersos na visão de mundo que carregamos, como óculos ou viseiras que trazemos aos olhos. O ver e o visto, espaço sináptico da percepção, num cérebro cerrado em si mesmo. O que vemos, descrevemos, realimentamos em aprendizado, do que a natureza ensina e compreendemos pela antropovisão restrita, basicamente a estratégia de viver, a luta, a sobrevivência, o ataque, a defesa: o feedback, mais círculo vicioso, de compreender o compreendido pela compreensão daquele que compreende.</p>
<p>Se possuíssemos pensamento mais sistêmico, histórico, dos processos culturais humanos, da guerra, da negação do outro, certamente desenharíamos outra concepção da biologia. A interação entre neutrófilos e Leishmania não se poderia entender no tubo de ensaio, mas no organismo do hospedeiro, no mundo que vive, exposto à picada do flebótomo. No tecido, não há apenas neutrófilos e leishmanias, os elementos conjuntivos, moléculas exsudadas, moléculas da saliva do inseto, interagindo com outras moléculas do hospedeiro, outros elementos celulares, no próprio tecido e vindos do sangue, um conjunto de alterações, que desencadeadas, rompem com a harmonia de uma pele fisiológica, íntegra, normal. O patológico é a desarmonia, o influxo celular, por si só, gera mais quimiotaxia, mais células, a migração de neutrófilos, fenômeno certamente muito transitório, logo chegarão as células mononucleadas, linfócitos, macrófagos, células dendríticas processarão antígenos, surge a assim chamada resposta imune específica. E são nos elementos do sistema imune, os macrófagos, onde os parasitos encontram ambiente para multiplicarem-se. A chamada imunidade inata, eficiente, aprisiona e mata o &#8220;invasor&#8221;, mas não vencido, esse aloja-se em células do avançado sistema imune, a imunidade específica, a resposta dirigida especificamente ao invasor, mas nesse caso, o invasor, utilizando-se especificamente da resposta a ele dirigida, evade-se, sobrevive.</p>
<p>E então o sistema imune, esse avançado sistema de defesa em organismos biológicos evoluídos, co-evoluiu com seus invasores, compartilhando com esses moléculas, que conferem enorme grau de afinidade do sistema com seus parasitas. Não é de espantar que o entendimento que fazemos do sistema, gera-se da interação das células do sistema com esses próprios parasitas, que nos mostram, por sua interação com o sistema, como o sistema interage com seus próprios elementos.</p>
<p>É caso da resposta Th1, Th2, detectada nos camundongos de linhagens diferentes, infectados por Leishmania, que se extrapolou a outras desarmonias do sistema.</p>
<p>Gostamos de desenhar e acreditar o organismo protegido, com arsenal de defesa pronto a atacar os inimigos e invasores, mas somente esses. A patologia, é a falha do sistema, a resposta ineficaz ao invasor, a resposta exacerbada dirigida aos seus próprios constituentes.</p>
<p>A patologia é o furo da nossa compreensão da fisiologia. Um sistema harmônico, que em dado momento se desarmoniza. Culturalmente, não temos a compreensão harmônica dos processos. Compreendemos mais o mundo pelo antagonismo, a luta, a prevalência ou preponderância, a transposição para a compreensão dos fenômenos biológicos é quase automática, restabelecer a fisiologia implica a destruição do inimigo, a eliminação do invasor, armas ou arsenal farmacológico. Se o desequilibrio produz pela hiperreatividade do sistema, a estratégia é inibir elementos ou vias metabólicas no sistema, deprimindo-o.</p>
<p>Há outras compreensões possíveis. A harmonia de um sistema. Equilibrio de pião em movimento. Corpo vivo, energia de milhares de moléculas, orquestra sinfônica, se alguém fora do tom ou compasso, conjunto desfeito. No organismo, possibilidade de outra configuração de música, o atonal, duodecafônico, outras harmonias podem surgir, se o conjunto comporta-se como sistema.</p>
<p>A vida é sinfonia sem partitura, sem ensaio.</p>
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		<title>Letter to the Editor</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Aug 2011 11:17:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gil Pena</dc:creator>
				<category><![CDATA[Consciência crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Patologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Reject. It is the final disposition I have received from the Editor-in-chief of Applied Immunohistochemistry &#38; Molecular Morphology Journal. My Letter to the Editor was simply refused to be published, as it has not achieved high enough priority and, due to space limitations, only a small proportion of submitted papers are accepted. My words to the [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=310&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Reject. It is the final disposition I have received from the Editor-in-chief of Applied Immunohistochemistry &amp; Molecular Morphology Journal. My Letter to the Editor was simply refused to be published, as it has not achieved high enough priority and, due to space limitations, only a small proportion of submitted papers are accepted. My words to the Editor refered to the paper of Wludaski et al (2011) about which I made comments earlier in this blog.</p>
<p>After the publication of that post, I was encouraged to send my reflections about the article to the journal, but the editor of the journal himself found that my concerns about the paper represent differences of oppinion, rather than factual differences about the data. This kind of assumption reflects a positivist view of the science, in which facts speak for themselves. I pursue a different epistemological approach: a fact becomes a scientific fact only after it is interpreted within scientific communities. The editor also misunderstood my discomfort about possible conflicts of interest, possibly because I mentioned that authors of the article are also members of the editorial board, raising some concern about the publishing policy of the journal.</p>
<p>Interestingly, as it concerns to my letter, the issue has become of local interest, and my own manuscript would not add significantly to the general literature.</p>
<p>I think however, my letter would indeed contribute, not as formal data in any particular topic, but as a general discussion about what is being published and how it is being published, in the interest of what, or the interest of whom.</p>
<p>Many of us may probably still have a naive comprehension about these editorial questions. Industry funded studies now represent a significant part of published science. The simple decision of the JAMA, to require independent statistical analysis of industry funded trials, has resulted in a significant reduction in the number of randomised clinical trials published in this journal, while over the same period, the number of industry-funded articles rose in The Lancet and NEJM. (Wager E, Mhaskar R, Warburton S, Djulbegovic B, 2010 JAMA Published Fewer Industry-Funded Studies after Introducing a Requirement for Independent Statistical Analysis. PLoS ONE 5(10): e13591. doi:10.1371/journal.pone.0013591).</p>
<p>JAMA decision discloses that formal data can have not only divergent interpretations, but also different statistical analysis.</p>
<p>Apart from publishing scientific papers associated with some kind of conflict of interest, the editorial world also provides barriers to publish critics as well as novel or divergent ideas.</p>
<p>As someone with exoteric views about science, my reflections generally do not achieve a level of interest (or comprehension) among editors or reviewers. I must confess, I have been rejected.</p>
<p>However, in other instances I have been surprisingly well accepted, even though my published ideas in general gained limited impact. I would like to render a tribute to reviewers and editors who analysed my not so well written papers, and were able to capture the meaning in a different thought style, and many times making real contributions to bridge my somewhat divergent thoughts with those in more widespread and hegemonic thought styles.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/liberdadereflexiva.wordpress.com/310/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=310&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Sorriso publicitário</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Aug 2011 11:05:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gil Pena</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Envelheci. Habitei-me de uma resistência mal-humorada às coisas do mundo, o sistêmico, das ações estratégicas, das mensagens publicitárias. Nas propagandas em cartazes, revistas, internet, sorri-me o personagem, forma estranha de comunicação que me oferecem, sua figura estática, congelada, o sorriso planejado, forçado, felicidade possível, eterna, em um clique de máquina, captura de imagem. Estranho o mundo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=301&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_307" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://liberdadereflexiva.files.wordpress.com/2011/08/riso-publicitario.jpg"><img class="size-medium wp-image-307" title="Riso Publicitario" src="http://liberdadereflexiva.files.wordpress.com/2011/08/riso-publicitario.jpg?w=300&#038;h=71" alt="" width="300" height="71" /></a><p class="wp-caption-text">De que riem?</p></div>
<p>Envelheci. Habitei-me de uma resistência mal-humorada às coisas do mundo, o sistêmico, das ações estratégicas, das mensagens publicitárias. Nas propagandas em cartazes, revistas, internet, sorri-me o personagem, forma estranha de comunicação que me oferecem, sua figura estática, congelada, o sorriso planejado, forçado, felicidade possível, eterna, em um clique de máquina, captura de imagem.</p>
<p>Estranho o mundo publicitário. Temo que me julguem imbecil. Tratam-me como se fosse. O personagem no cartaz, na página de internet, na revista, sorri, ri de mim, eu não rio, mas vejo seu sorriso, no banco, na cooperativa de médicos, estão lá felizes, eu na fila, aguardando o atendimento, recursando glosas, o personagem ali em duas dimensões, rindo, maroto, parado. Em diferentes campanhas, muda o personagem, sempre o mesmo riso, calculado, não gargalham de mim, apenas riem. A minha situação não é nada engraçada, apenas risível.</p>
<p>Bolando suas campanhas, estou seguro que riem os publicitários, do engano que produzem, do engodo. Cidadões desprecavidos todos conduzidos em rebanho, ovelhas pastoreadas, num sorriso fácil, falsa promessa de uma felicidade jovem, agora esquecida, em outros tempos já pudemos rir, eu mesmo me lembro disso, recordo do real que era, a sensação, a promessa, aproveitam-se daquele futuro hoje antigo, desbotado, um tempo em que acreditei na possibilidade de trilhar diferente o mundo, mas o mundo está aí, o riso meu entre amigos, algum registrado na foto, em memória, sublime momento, hoje a propaganda banaliza, ensaiam os jovens seus melhores sorrisos fotográficos no espelho, ao preparar-se para a foto, contraem seus músculos na posição, a exposição calculada dos dentes, o franzir de canto de olhos, tudo na medida. Na foto, conferem o resultado, não ficou bom, deleta esse momento, registra outro. É o sorriso do personagem. O momento fabricado, banalizado, o tempo a construção do registro do momento, não mais o fluir da construção histórica.</p>
<p>Não é para falar dos jovens de hoje, mas da publicidade. Hoje o mundo é instantâneo, mas a máquinas digitais usuais demoram a reagir, as pessoas não se pegam mais em momento espontâneo. Importa a pose. Diferente de antes, o presente era revelado, a mágica do click, em banho químico, papel exposto em quarto escuro, negativos, exposições, revelações. Pixels registrados hoje transmutam-se digitais real imaginário corrigido clareado emagrecido alisado.</p>
<p>A propaganda é a questão da imagem, da marca, vale o retoque, apagar o momento, obter outro, até chegar-se àquele sorriso, que fica ali congelado, que me aparece na página da internet, na revista, na fila que enfrento, ao lado do produto que não preciso, mas cobiço, pela promessa de achar de novo aquele momento, momento só da promessa de encontro, instante perdido nesse processo de envelhecer.</p>
<p>Aceito envelhecer, mas resisto ainda ao mundo que está aí. Resistir era coisa da juventude, inadaptação. Entendia que o mundo era passível de transformação, hoje parece que o mundo é esse mesmo, nós é que nos adaptamos a ele, tudo fica como está, não há luta, há adaptados e não adaptados, a uma realidade que é do mundo, não estamos responsáveis por isso. Na propaganda, na publicidade, há o sorriso. É o mundo que me oferecem, querem que eu acredite, mas eu desajusto, resisto, não vem com esse risinho.</p>
<p>É a solução publicitária. Os governos quase sem ação efetiva no mundo, sem capacidade ou interesse de mudar a realidade das coisas, investem nas campanhas de publicidade, dando visibilidade a ação de &#8220;marketing&#8221;, sem que haja por trás qualquer outra ação. É o combate à dengue do governador do estado. Diz &#8220;Agora é guerra&#8221;, mas a guerra trava-se nos sinais de transito, onde jovens bem aparentados, sorrindo, solicitam pregar um adesivo aos carros que se interessem em participar da campanha&#8230; publicitária! A ação efetiva contra o mosquito transmissor, seus criadouros, as visitas aos domicílios, a real batalha não tem importância, o interesse é fazer parecer que o governo luta : é guerra. A propaganda sempre foi arma de guerra. A propaganda é ação estratégica, no melhor exemplo, mensagem muitas vezes sistematicamente distorcida.</p>
<p>Risos, contrações faciais voluntárias calculadas, fórmulas desgastadas pelo uso e reuso, desacreditadas pelo vazio, dentes limpos ortodônticos.</p>
<p>Quase nunca rio, nunca é nunca, mas quase é quase, guardo o riso autêntico, não aprendi ensaiar sorriso social fotografável.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/liberdadereflexiva.wordpress.com/301/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=liberdadereflexiva.wordpress.com&amp;blog=7761296&amp;post=301&amp;subd=liberdadereflexiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Ipê roxo</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Jul 2011 10:41:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gil Pena</dc:creator>
				<category><![CDATA[Evolução]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Nesta época do ano, florescem os ipês roxos nas ruas de minha cidade. Chamo de roxo, mas não sei se é mesmo o roxo, já que suas florescências chamam ao rosa, ao lilás, e há mesmo o ipê que é rosa, e não saberia dizer, eu em minha ignorância botânica, do que é mesmo que falo, mas se andarem por aí, nesta mesma época, nesta mesma cidade, não se enganarão do que digo, pois é das árvores que perdem todo o verde de suas folhas, sendo sua copa totalmente ocupada, pelas flores lilases ou rosas escuros, saberá por que as chamamos de roxo, talvez, creio que é por isso mesmo, há o ipê mais rosa, da tonalidade rosa claro. No ipê roxo que falo, as florescências são adensadas, formam cachos esféricos, outro ipê mais rosa, é menos pujante, mais esparsa a floração, ainda com folhas presentes. Ao longo dos anos, vou acompanhando o florear do ipê, marca da volta ao início, do estranho movimento astrofísico de nosso planeta, em torno de nossa estrela, o que hoje entendemos fazer estender a noite, esfriar o clima, inclinados que estamos em nosso eixo, fora de centro, se miramos no centro de nosso mundo, giro inclinado, elipsante, equilíbrio num ponto distante.</p>
<p>Sabe o ipê, a que volta estamos. Suas flores denunciam conhecer a navegação planetária em meio ao universo e mais além. De outras vezes, pensei que não. Não diretamente, pelo menos, poderiam receber um comunicado do fato, por exemplo, algum inseto, que lhe sopre nos brotos, agora. Talvez o arauto seja uma poeira, das cósmicas, das nuvens nebulosas, vinda nos ventos, que chegando aos ipês lhes balançam as folhas em movimento próprio, é o sinal. Também já imaginei as árvores em seu conversar farfalhante, estabelendo o nascer da estação, que para chegar depende de seu florear, e cumprem o ritual com a responsabilidade de florear no momento próprio, não antes não depois, em sintonia com o planeta, agora vivo, pedaço inseparável do organismo, desse que falo agora, o que floreia em roxo. O ipê, não mais o ipê, o ipê também a terra que entranha suas raízes.</p>
<p>Posso olhar o ipê, meus olhos de cientista o verão, tratando mesmo de desvendar o mecanismo do florear, da substância do roxo, a flor caminho sexual do se fazer semente, o sexo jogo da natureza de brincar com a vida. Na medida em que a ciência aprofundou-se nos conhecimentos, delimitou-se num campo estreito, penetramos uma matéria, algo grande, dizemos, vamos começar daqui, com disciplina, vamos calmamente retirando pequenos tijolinhos, que numeramos e marcamos sua posição. Adentramos a matéria, minando-a com túneis estreitos, lá dentro de seus túneis, quase nem lembramos aqueles primeiros tijolos descontruídos, onde havia luz, o deslumbramento, a matéria intacta a se desbravar. Não é uma missão solitária, tampouco solidária. Em suas disciplinas próprias, tira-se um tijolo aqui, outro ali, o caminho já desmanchado dita o progresso. A matéria, nem sempre inerte, quando vida, revira-se, revolve-se, embaralham-se os seus tijolos, cientistas agora como mineiros chilenos, mas ninguém em seu resgate, adentrados em seus laboratórios, no afã de contribuir com seus pequenos tijolos descontruídos, o mito de uma saída, uma compreensão. O conhecimento, agora um labirinto, vez por outra, encontramos exploradores de outras disciplinas, em seus túneis particulares, é a breve transdisciplinaridade.</p>
<p>Não é pouco curioso que o iluminismo, a luz, em determinado momento, a possibilidade do ver, do descortinar, foi o que abriu o caminho para a ciência adentrar a matéria, em seus estreitos caminhos, mais profundos, mais intrísecos, mais invisíveis, de modo que a ciência a cada dia menos vê, mergulha-se, num trilho encadeado de um saber, que leva outro, mas a luz pós-renascentista, a que nos possibilitou um dia ver, hoje é uma réstia distante, tão mais distante, quanto mais adentramos a nossa matéria de estudo, pelo estudo que leva a outro, e outro, sequencia linear, caminho que distancia o saber, não integra. A luz, a que buscamos, o ver, o descortinar da ciência, agora memória de conhecimento amplo, na superfície. Dir-se-á hoje rasteiro. Melhor cientista toupeira, doutor em profundidade, cego na claridade.</p>
<p>A flor do ipê. Em tempos da luz, do iluminismo, um cientista não trataria do interessante fenômeno, sem propor-se um capítulo sobre a sensação que produz a floração no humano, da percepção da cor, a noção estética desse tom de roxo, contrastado com o azul céu denso limpo sereno frio do inverno. Na superfície, na ciência rasteira, onde há luz, há o ver humano, esse que faz o roxo do ipê ter nome, ter sensação.</p>
<p>O ipê, como nós mesmos, é ser vivo, multicelular. Células, como nossas próprias células, no conceito. Célula, conceito, tijolo desconstruído do quebra-cabeça da vida, contribuição de Schwann. No microscópio, tentamos desvendar a flor do ipê, mas a célula não é a beleza da flor, do rito da vida, o inseto polinizante, busca ali um doce nectar, fecunda, a vida manifestando-se na luz, no organismo vivo, não nas suas células individualmente.</p>
<p>Procurou-se inutilmente nas células a resposta, a beleza da flor, o roxo, o céu do azul inverno, na latitude tropical que habito, eu o cientista que vê, fecho meus olhos a tudo isso, adentro mais a matéria, busco a resposta nas moléculas. Desvendo o DNA, não mais a célula, outro tijolo desconstruido no quebra-cabeça da vida, outra peça de fora. Entendo agora a flor, não tem mais encanto, serve ao ipê, caminho de levar esse conjunto de bases nitrogenadas a outro ipê, que brote pelas informações contidas, nessas duplas hélices purinas, pirimidinas, timinas, adeninas, citosinas, timinas. A flor, desconstruo em estame, pistilo, antera, ovário, o pólen, no seu caminho até o óvulo, semente encasulada no seu fruto próprio, no caso do ipê um legume, deiscente, sementes aladas, propósito único de se levar ao vento, disseminar o ácido desoxirribonucleico. Apaguei a luz, o deslumbre da vida, a flor do ipê, mero mecanismo molecular que desvendei, meu objeto de estudo perdeu a beleza. Morre o fascínio, destrói o cientista a sua própria ciência.</p>
<p>Outro caminho, o da luz. Vive o ipê da luz. Nas suas folhas, fotossíntese. Cientista interessando em construir o fenômeno, não desconstruir. Dar explicação. Entender o que faz o ipê florir, na sua ontogênese de ipê. No seu lugar de ipê, na biosfera. É a luz, eu penso. Ofereço mecanismo gerativo. As moléculas em atividade nas células do ipê. A luz indicindo sobre o cloroplasto, energia, os genes, as proteínas, componentes da maquinaria celular, não se servem uns aos outros, mas constituem a célula, a folha, a flor, a árvore. A árvore, organismo ipê. Trato do roxo, pois lhe veio o roxo na filogênese, mas houve também a do rosa, do branco, do amarelo, e podem nem mesmo ter filogênese comum. A natureza deriva, há encontros, desencontros filogenéticos. Depende do viver do organismo. O viver do ipê, a luz, dias mais longos, mais luz, mais curtos, menos luz, nas moléculas, ativam-se, desativam-se fatores de transcrição, de sinalização, de diferenciação, a transformação, o relé do gradiente, sensível ao minuto de luz que está hoje presente a mais. O ipê, a árvore, não as suas moléculas, sintonizado ao movimento planetário, solstício de inverno. Passou a noite mais longa, estendem-se os dias, ilumina-se mais o planeta no hemisfério sul.</p>
<p>A beleza do ipê, o seu florir roxo, nas ruas de minha cidade, cena antropocênica, que a vida do ipê roxea. Roxeia. Recheia.</p>
<p>É o reveillon. Não o que pessoas festivam em artificial dos fogos. É a comemoração íntima, entre mim e os ipês, de que cumprimos mais uma volta, recomeçamos, seguimos, eu e o ipê, em mais uma jornada planetária, vivos, renascidos. Sementes aladas, desterritório, humano pensamento, vôo.</p>
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